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Lura
• Eclipse •
Deixámos Lura em 2006 com o excepcional “M'bem di Fora”. Regressa hoje com “Eclipse”, o seu melhor álbum até à data! Gravado entre Bruxelas, Lisboa, Paris, Praia e Nápoles, esta quarta obra confirma um talento seguro e a elegância natural de uma cantora que não deixa de surpreender.
Composto por B. Leza, o histórico compositor cabo-verdiano, cantado por Cesaria Evora, o tema Eclipse é um tesouro de emoções e de sobriedade. Transmite o tom do álbum, todo ele, elegância numa acústica plena de graça. Esta faixa ilustra a realidade da sodade, esse sentimento confuso de melancolia e de tristeza, uma relação nostálgica com a terra, o mar e a família, cantada desde sempre pelos poetas, os marinheiros e as suas mulheres. Escutamos por vezes na voz sensual de Lura os lamentos longínquos do seu exílio, uma sodade difusa e suave mas nunca amarga.
Artista lusófona com sapatos de vento, Lura evolui no cruzamento das culturas portuguesas e cabo-verdianas. Nascida em Lisboa em 1975, o ano da independência de Cabo Verde, ela continua extremamente ligada à terra e cultura da sua família. Aos dezassete anos dança e faz os coros para Juka, um cantor de zouk de São Tomé. Abandonando os seus estudos de natação, ela lança-se num grande banho musical. Impõe-se como cantora com o seu próprio nome no meio da multidão. Em 1996, Lura grava um primeiro álbum urbano de r'n'b e de zouk afro-lusófono. Um duo notável com o cantor angolano Bonga e, em seguida, colaborações com outros artistas, seduzem José Da Silva, proprietário da Lusafrica e produtor de Cesaria Evora, que a leva a assinar pela sua editora. Em 2004, Lura edita o seu primeiro álbum propriamente dito, “Di Korpu Ku Alma”, um disco que lhe vale um belíssimo reconhecimento da crítica.
Graças ao sucesso do álbum seguinte, “M'bem di Fora”, que sai em 2006, Lura percorre o mundo e conquista um público cada vez mais fiel e atento à sua música. Com ela, as jovens gerações cabo-verdianas redescobrem o património musical local, batuque ou funana. Elas dançam, amam e choram ao som dos ritmos apreciados pelos seus pais ou avós. Álbum da maturidade, “M'bem di Fora” apresenta as bases das suas canções futuras e deste novo álbum “Eclipse”. Hoje, Lura reivindica de corpo e alma as suas raízes cabo-verdianas, com o propósito de transcendê-las: «Canto a música do país dos meus pais. Identifico-me sobretudo com Santiago e Santo Antão, porque estas são as ilhas do meu pai e da minha mãe. Cantar a música de Cabo Verde é como viver coisas que nunca conheci».
Tendo nascido num bairro crioulo de Lisboa, Lura é embalada pelos ritmos vindos destas ilhas sobre e sob o vento, mas também pela pop portuguesa, o jazz, a música africana ou a soul americana. São todas estas influências que encontramos nos dias de hoje em “Eclipse”. Este disco fala de amor, de alegria e de tristeza, por vezes. Reencontramos ao longo destas catorze novas faixas uma energia inacreditável, como é o caso Maria, uma canção escrita pela própria Lura, na qual o baixo e a percussão formam uma caixa de ampliação magnífica da sua voz.
O seu director musical e arranjador Toy Vieira compôs o maravilhoso Um Dia a pensar nela. Nesta balada em tom jazzístico e coros discretos, Lura, expansiva, irradia literalmente, tal como no arrebatador Quebrod Nem Djosa (significa sem dinheiro nenhum, como Djosa - figura mítica representativa da pobreza), um dos pontos altos do álbum. Composto por Vlu (Valdemiro Ferreira), um dos jovens autores do Mindelo, esta faixa apela à honestidade dos cabo-verdianos face à adversidade económica. Os metais e coros invadem-nos de alegria e de bom humor, que têm sempre a última palavra face às provações da vida.
O acordeonista de Madagáscar, Régis Gizavo acompanha Lura nas faixas Marinhêro, Na Nha Rubera e Sukundida, três arrebatadores temas do álbum. Queima Roupa é uma das três faixas escritas por Mario Lucio. O álbum fecha com uma espécie de bónus que transborda doçura, Canta Um Tango é obra do grupo Kantango, com palavras de Teófilo Chantre, gravada em Nápoles, é um tema que se impõe de forma suave, como um tango pós-moderno.
Em “Eclipse”, Lura revisita com alma as paletas musicais do seu país e os diferentes estilos cabo-verdianos, da coladera ao funana. Plena de inspiração e energia, a sua voz marca mais uma vez, a diferença. Contudo, é ela quem nos confia de forma modesta: «Para mim, a minha carreira é uma surpresa constante, desde a descoberta da minha voz na adolescência até hoje. Vivo um dia de cada vez... Mas sou hoje cantora para o resto da minha vida, disso tenha a certeza. Não sei porquê».
Nós sabemos a razão quando ouvimos “Eclipse”. Este quarto álbum confirma o talento imenso de Lura, uma jóia da nova geração cabo-verdiana!
Florent Mazolini
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