Kreol reflecte a beleza, não perturba as formas existentes, remistura-as. Dedicado ao Oceano Atlântico, ”matrimónio da humanidade”, este álbum extremamente suave e musical em busca do segredo da “crioulização”, a que o escritor antilhense Edouard Glissant se refere como “a mestiçagem mais outra coisa que nunca se pode definir” sob pena de se perder. “O jazz, acrescenta o romancista numa conversa com Mário Lúcio, veio de todo o lado, não de forma imperativa, brutal, mas sob a forma de vestígios. A música precisa da ligação, das raízes, a aposta é ultrapassá-las sem as fazer desaparecer. A música deve correr o risco da diversidade.” Estas músicas crioulas não foram “imperiais”, impondo uma forma fixa, acrescenta Glissant, projectaram um imaginário sofrendo antecipadamente. Misturaram as igrejas católicas e a transe pagã. Gera a biguine, a bossa nova, a salsa e o son, o blues, o swing, o rap, o calypso, a rumba, a morna e a coladera, etc., todas formas que marcam Kreol. …/…
Na sua caminhada, o autor, compositor e intérprete, teceu laços subtis e cantou, em Crioulo e em Português, com figuras notáveis das músicas afro-atlânticas: Ralph Thamar e Mario Canonge na Martinica, Toumani Diabaté no Mali, Pablo Milanés em Cuba, Teresa Salgueiro e Pedro Jóia em Portugal, Milton Nascimento no Brasil, Harry Belafonte nos Estados Unidos, com regresso a Cabo Verde através de Cesaria Evora.
Nascido em 1964 no Tarrafal, no norte da ilha de Santiago, Mário Lúcio empreendeu em 2009 esta viagem na crioulidade “com regresso”, uma sorte, afirma o homem nascido perto do “umbigo da mestiçagem mundial”, Cidade Velha, cidade que liderou o comércio de escravos desde 1462, três séculos antes da simbólica ilha de Gorée no Senegal. Peuls, Wolofs e outras etnias eram aqui desembarcados para serem baptizados, antes de receberem uma tanga de algodão em sinal da sua novíssima condição humana. Alguns partiam para as Américas, outros permaneceram, sem mais poderem voltar a casa.
O ADN cabo-verdiano é, assim, feito de “crioulidade”, da qual Mário Lúcio, africano militante da união na diversidade, é um exemplo. Do lado da avó, uma família de escravos; do lado do avô, os colonizadores portugueses. Na capa do seu anterior álbum, Badyo (Lusafrica), ele apareceu de branco imaculado, o seu habitual trajo, com uma corrente de elos largos a fazer de gravata. “Para apagar qualquer ódio entre brancos e negros, o mestiço é obrigado a reciclar todos os símbolos. Deste modo, peguei na corrente que uma das minhas origens foi obrigada a usar e na gravata que a outra origem usava voluntariamente.”
A música da República de Cabo Verde, arquipélago saheliano de 500 000 habitantes e 700 000 emigrantes, vai para lá da morna e da coladera, dadas a conhecer mundialmente por Cesaria Evora, da ilha de São Vicente. Criança, Mário Lúcio aprendeu a cantar o finaçon, improvisação poética que se desenrola em ritmos africanos batidos nas pernas ou em fardos de pano. “Perto da minha casa, vivia Bibinha Cabral, que faleceu em 1987, mulher pequena e tímida, que cantava com os olhos fechados e, desta forma, dava lições de filosofia. Ela foi o meu Pablo Neruda.” O primeiro grupo musical de Mário Lúcio escolhe o nome de guerra (Abeljasi) do herói nacional da independência cabo-verdiana e guineense, Amílcar Cabral. O segundo, Simentera, torna-se o primeiro grupo musical cabo-verdiano inter-ilhas.
Mário Lúcio estuda Direito na Praia e depois em Havana, finalizando advocacia em Cuba. Descobre no outro lado do Atlântico os ritmos Iorubás, vindos do Golfo da Guiné, o canto coral, os húngaros Zoltán Kodály e Béla Bartók. Regressado a Cabo Verde, o advogado-músico é eleito em 1996 deputado do PAICV (ex-PAIGC, o elemento dinâmico da independência).
No Tarrafal, o Estado Novo de Salazar estabelecera o seu campo de detenção para prisioneiros políticos, vindos de todo o Império. Depois da “Revolução dos Cravos” de 1974, Cabo Verde tornou-se independente e transformou a prisão em um quartel. Mário Lúcio, 11 anos, rapazinho mal vestido nascido no seio de uma família de oito crianças, é então escritor público pago com ovos ou galinhas. Um militar repara nos seus dotes poéticos e oferece-lhe os estudos, casa e protecção no quartel do Tarrafal. O local é um laboratório de diversidade cabo-verdiana: os soldados vindos de todas as ilhas, numa época em que os meios de comunicação no arquipélago eram rudimentares. “Todas as pessoas de Cabo Verde vieram ter comigo, com os seus modos diferentes de tocar cavaquinho (viola pequena), violão ou acordeão, de falar crioulo, de chorar.”
por Véronique Mortaigne
DISCOGRAFIA
“KREOL” o novo álbum de Mario Lucio gravado com a participação de Milton Nascimento, Pablo Milanes, Teresa Salgueiro & Pedro Jóia, Ralph Thamar & Mario Canonge, Toumani Diabaté, Cesaria Evora, Harry Belafonte, Awa Sangho, Zoumana Tereta e Gorée Afro Djembé, será lançado em Portugal a 13 de Outubro de 2010, sob a etiqueta Lusafrica (distribuído em Portugal pela Tumbao).
>> Ver o teaser do filme KREOL: http://vimeo.com/13618119
Outros álbuns a solo:
Mario Lucio – Badyo (Lusafrica, 2008)
Mario Lucio – Mar e Luz (Mélodie, 2004)
Álbuns com Simentera:
Simentera – Tr'adictional (Mélodie, 2003)
Simentera – Cabo Verde en Serenata (Piranha, 2000)
Simentera – Barro e Voz (Mélodie, 1998)
Simentera – Raíz (Lusafrica/Mélodie, 1995)
Álbuns produzidos por Mario Lucio:
Tété Alhinho – Voz (World Connection, 2004)
Charles Marcellesi – Corsicaboverde (Lusafrica, 2000)
Lena Franca – Amornado (Last Call Records, 1999)
Tété Alhinho – De-Cor-a-Som (1998)
Ildo Lobo – Nós Morna (Lusafrica 1997)
Tété Alhinho – Sentires (1996)
Resumo Biográfico: Lúcio Matias de Sousa Mendes, mais conhecido pelo pseudónimo Mário Lúcio, nasceu no Tarrafal, na ilha de Santiago em Cabo Verde, a 21 de Outubro de 1964. O seu pai viria a falecer quando ele tinha apenas doze anos, sendo então recolhido pelo exército cabo-verdiano. Quando a mãe veio também a falecer três anos mais tarde, ela deixa 8 crianças órfãs. Mário Lúcio faz os estudos secundários sob a tutela das autoridades militares e vive no quartel do Tarrafal que durante o período colonial funcionou como campo de concentração. De seguida, obteve uma bolsa que lhe permitiu estudar na cidade da Praia, a capital. Em 1984, ganha uma bolsa do governo cubano para estudar Direito em Havana. Regressa a Cabo Verde seis anos mais tarde, já como advogado. Em 1992, é nomeado conselheiro cultural junto do Ministro da Cultura. De 1996 a 2001, é deputado no Parlamento Cabo-Verdiano.
Mário Lúcio Sousa é o fundador do grupo Simentera, que marca o regresso decisivo da música cabo-verdiana às suas raízes acústicas e reivindicou a cultura continental africana como elemento da identidade cultural cabo-verdiana. As suas convicções valeram-lhe a nomeação para conselheiro do Comissário responsável pela Expo 92 em Sevilha. Para esta e, mais tarde, para a Expo 98 em Lisboa, Mário Lúcio Sousa foi o autor dos projectos musicais que representaram o seu país.
Mário Lúcio Sousa é multi-instrumentista e arranjador de vários álbuns de artistas cabo-verdianos. Fundador e director da Associação Cultural Quintal da Música, cujo Centro Cultural Privado trabalha na valorização da música tradicional e no acesso das crianças à aprendizagem e à promoção dos seus talentos.
www.mariolucio.com www.myspace.com/marioluciosousa