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Tcheka
 
 
• Lonji •
 
 
 
Desde que Tcheka emergiu como artista cabo-verdiano na cena musical mundial, os jornalistas e críticos de música deram uma atenção quase exclusiva ao seu trabalho como sinfonista. No entanto, poucos escritores passaram além deste talento excepcional da guitarra acústica para se concentrarem no lirismo subtil, vívido e altamente matizado que ele confere às suas elegantes composições. No momento em que Tcheka sintoniza a guitarra e separa os lábios, podemos cometer o erro de pensar que ele se limita a oferecer uma representação musical exemplar do arquipélago de Cabo Verde, ou da sua ilha nativa de Santiago – a culturalmente mais associada à África.
 
Bem pelo contrário, ele leva o ouvinte a uma paisagem – ou área sonora – estranha, da sua própria criação. Sim, os marcadores musicais de Cabo Verde e de Santiago aparecem nela, mas apenas em traços e flashes, evasivos e irrecuperáveis, como um pensamento interrompido, ou até mesmo como um sonho disperso. De qualquer forma, a precisão antropológica e as subtilezas poéticas das suas narrativas líricas são inegáveis.
 
A alma de Santiago de Tcheka existe nas ruminações esvoaçantes apreensivas de um velho agricultor quando admira a sua vaca recém-marcada numa colina despida e acidentada (1), ou no devaneio calmo do pescador nas margens da água, enquanto espera agoniante que a sua linha seja mordida (2), ou na súplica desesperada e que faz doer o coração, de uma mulher que descobre que após várias semanas a trabalhar numa construção de estrada, inexplicavelmente o seu nome não aparece na folha de pagamentos (3). Nunca escrita de forma óbvia e de exposição, a sua lírica assume quase sempre a forma de um monólogo interior altamente realista ou falado, escrito do ponto de vista de um actor social anónimo.
 
Captado num momento de humor, sensualidade, misticismo ou lamentação, o que é sempre fiel à forma é a oscilação emocional da voz, a realidade da experiência vivida e os maneirismos linguísticos precisos do actor social a ser retratado.
 
BIOGRAFIA
Tcheka, Manuel Lopes Andrade, nasceu em 1973 na Ribeira da Barca, uma pequena aldeia rural da costa nordeste de Santiago, cuja modesta economia se baseia na agricultura e na pesca. Foi o penúltimo de uma grande família musical – sendo a música a principal fonte de rendimentos da família durante muitos anos. O seu pai, Nhô Raul Andrade, era um violinista famoso da área que ensinou música aos seus filhos e eventualmente criou uma pequena banda familiar que tocou em casamentos locais, funerais e festividades baptismais. Tcheka diz que aprendeu a tocar guitarra acústica de forma coerciva com 8 anos, e aos 9 anos tocava na banda da família sob a direcção severa do seu pai. Tal como muitos jovens cabo-verdianos, a educação secundária de Tcheka teve de ser interrompida porque a sua família não podia pagar as despesas, de forma que a sua adolescência foi passada a pescar, mergulhar e explorar a costa à volta da sua aldeia. Foi também durante este período que começou a compor. Circundada pelas formas irregulares e assustadoras da Serra Malagueta e pelo mar escuro e embravecido, Ribeira da Barca mostrou ser a paisagem ideal em que o artista pôde construir a sua visão única. O primeiro envolvimento de Tcheka numa profissão não musical tornou-se, provavelmente, o facto mais responsável pelo alargamento do alcance da sua arte musical. Em 1991, com 18 anos de idade, conseguiu um emprego como assistente de câmara na estação de televisão nacional (então TNCV) na cidade da Praia, capital de Cabo Verde. De 1991 a 2000, Tcheka trabalhou como cameraman enquanto executava espectáculos artísticos nocturnos com amigos em pequenos bares, hotéis e restaurantes em toda a capital. A sua primeira gravação Ma’n ba des des kumida da? [Haverá colheita desta vez?] apareceu na compilação do CD de beneficência Cap Vert Les Enfants (1999) enquanto ainda estava a trabalhar como cameraman da TNCV, mas manteve-se em obscuridade relativa, ainda empenhado no seu emprego a tempo inteiro.
 
Um ponto de viragem importante na sua carreira surgiu com o lançamento em 2000 de outro CD de compilação Ayan: New Music from Cape Verde [Nova música de Cabo Verde]. Entre as três contribuições de Tcheka para este projecto inovador encontrava-se a versão original de Primeru bes kin ba Cinema [A primeira vez que fui ao Cinema] em que conta novamente, com leveza e grande detalhe, o momento em que viu um filme pela primeira vez. A canção não só volta a imaginar aquele momento como uma perda de inocência repentina, assustadora e irrevogável para as ilusões sedutoras do ecrã, um momento decididamente formativo para Tcheka, mas também estabelece o visual como o tema predominante e a metodologia narrativa das suas composições. Tcheka descreve o seu processo criativo desta forma: “Quando crio uma canção, esta é como que uma sequência de imagens, tal como os quadros de um filme, perante os meus olhos – a melodia em si mesma é uma história que realmente vejo na minha cabeça, e depois escrevo a letra em conformidade com tal visão.” Na verdade, o que distingue imediatamente Tcheka de todos os outros compositores cabo-verdianos é a abordagem idiossincrática e não linear que ele assume ao estruturar as suas canções – muitas vezes com deslocações muito abruptas em tempo, melodia, assunto lírico e humor, muito sugestivos dos cortes rápidos e transições de cenas de um filme.
 
O lançamento de Argui [Levanta-te] (2002), o seu primeiro álbum a solo, solidificou a sua reputação em Cabo Verde como especialista da guitarra e compositor musical original e comovente, e o seu sucesso forçou Tcheka a entrar na música a tempo inteiro. Em 2005 entrou no concurso “Découverte Musiques du Monde” da prestigiosa Radio France International efectuado em Dakar, Senegal, e competiu contra alguns dos artistas líderes da música africana contemporânea. Não é necessário dizer que regressou a Cabo Verde com o seu primeiro prémio e, finalmente, o estrelado nacional e regional. No entanto, foi o Nu Monda [retirar as ervas daninhas] (2005) aclamado pela crítica que o projectou para a estratosfera da música mundial, e que fez com que toda a gente começasse a falar dele, no país e no estrangeiro, que ele era a verdadeira “vanguarda” da música cabo-verdiana.
 
 
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